
“Não temas, não temas” – diz o coxo ao cego, tentando livrar a ambos de um buraco que se segue. É a prosa da vida, comer ou ser comido, neste caso, andar ou ser engolido (por um grande buraco). Buracos, tentáculos, cordas, manobras – as tentações têm muitos nomes nestes tempos que correm.
As tentações são como o tempo, imprevisíveis e lixadas, e depois quem se trama é o carteiro, que para sua protecção só dispõe de uma fina capa de plástico ‘made in china’. Maldito sejas carteiro, que és quase sempre portador de más novas e de dívidas. Como se EU precisa-se disso. Mas o pior nas tentações é que estas frequentemente dispõem de memórias para picarem o presente de modo a que este se disponha a reviver o passado, e lá vai o pobre, iludido, e enganado, “os bons tempos voltaram!”. Maaaaas, é por isso que se chamam tentações, não só porque rimam com ilusões, mas também porque tudo o que é tentador é, igualmente, e normalmente, proibído (e habitualmente também, já salientei isso?) E é isso que as pessoas querem. Querem desejar o que não lhes diz respeito, fazem tanto por levar a cabo o desejo que, o que antes não lhes dizia respeito passa a ser inteiramente a respeito delas, das pessoas. E depois, quando o respeito já é sobre eles, estas pessoas sem respeito desrespeitam o que antes não lhes dizia respeito por já não quererem saber a respeito disso. Confuso? É a vidinha. Confusa, enfadonha e muitas das vezes o conto de fadas que ganhámos com muito suor e carinho é roubado ou trocado por tuta e meia às três pancadas,e pronto lá se foi tudo com o vento.
Vento vento, também ele é portador de más notícias. É o vento que nos traz o cheiro a perfume cuja fragrância nós não conhecemos vida do nosso homem (prestes a ser o nosso ex qualquer-coisa). Também é o vento que traz as tempestades, e que as leva consigo, como se estivesse a fazer uma visita guiada ao furacão Katrina e a outros pelos continentes terrestres. Esse é outro capitalista. Depois, para se desculpar que contribui para o ambiente, planta umas sementezitas aqui, e dá umas brisas ali, e depois pavoveia-se na nossa cara com o seu ar de “eu só faço coisas boas”, quando sabemos muito bem que não é assim.
E depois é nisto que ficamos, é nesta pasmaçeira que vamos vivendo e consequentemente, nos arrastando.
Ah, depois ainda há aqueles que se chamam artistas, e talvez com razão, porque fazem coisas que agradam ao olhar, seja andar de skate ou de trotinete, pintar ou pegar fogo ao cabelo, dançar ou fazer filmes com conteúdo duvidoso, e parecendo que não todas estas coisas vão sendo vistas e apreciadas, se bem que a meu ver algumas são bastante weird (estrangeirismos, outra lacuna na nossa sociedade, é isso e a palavra “soutien”. Enfim…) Mas essa chamada arte, ainda que bonita, não vale de muito aos artistas que acabam quase sempre por ter um parafuso a menos, seja por desgostos amorosos ou devido à pobreza, fome, fobias (cada vez há mais! ) ou apenas estupidez crónica. Claro que também existem depressões, e muita boa gente sofre disso, mas infelizmente também muita boa gente não admite que as tem, e vai continuando a dificultar a pasmaçeira que é a sua vida, aguçando a faca que lhes vai cravando a alma com as encruzilhadas perplexas que a mente pra lá inventa, só para chatear.
Por isso, e só em jeito de conclusão, dedico este texto cheio de nada e de coisa alguma a todos os depressivos e depressivas que lá vão vivendo, como eu, sem realmente terem algum remédio. Mundo, abraça-nos masé e corta nas tretas.
.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário
Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.